quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Será que as bailarinas são odaliscas?

Harem dancer, Hans Zatzka
 
            Vocês já devem ter ouvido alguém se referir às bailarinas como odaliscas. No Carnaval, são vendidas “fantasias de odalisca”, que são iguais às usadas na dança do ventre; em shows, as pessoas apresentam: “E agora, nossas lindas odaliscas!!!”. Não é verdade?

Não sei porque nem quando esse costume começou, mas sei que as odaliscas, originalmente, não tinham nada a ver com ser dançarina...!

Afinal, quem eram as odaliscas?

O termo vem do turco UADAHLIK, que significa criada de quarto.

Criada de quarto? Como assim?

Para entender isso, vamos recuar um pouco para o tempo e o lugar onde esse termo originou-se e era empregado, ou seja, nos palácios dos governantes do Império Turco-Otomano.

            O palácio era a sede do Governo e também a moradia do governante e sua família.  A vida social e política da classe mais elevada acontecia dentro dos espaços privados; a reclusão – tanto dos homens quanto das mulheres - significava privilégio para as classes abastadas. Para que tudo funcionasse bem dentro dos palácios ou seja, a vida familiar, política, social e cultural, era necessário haver muita organização e um grande aparato administrativo.

            Uma das estruturas do palácio era a do harém, que nada mais é do que o espaço reservado à vida íntima, familiar, seja num palácio ou numa casa comum. É o local de convivência da família e dos parentes próximos, além de parte da criadagem. Outras pessoas não podem entrar.
 
A palavra harém é derivada de h-m-r, raiz árabe que significa sagrado ou proibido, pode também designar o espaço privado das mulheres. É uma idéia muito antiga e vários povos tiveram ou ainda têm um tipo de harém, que é um lugar de convivência e trabalho doméstico também.

Um fato interessante é que a questão do poder dentro da estrutura dos palácios poucas vezes é abordada no que se refere às mulheres. Mas são elas que dão os descendentes ao trono, logo os aspectos sucessórios são de suma importância para elas. Existe uma hierarquia clara dentro dos haréns dos palácios e as mulheres não estavam preocupadas apenas em ficar reclinadas descansando, como é visto em diversas pinturas dos orientalistas. Tinham suas ocupações também, não ficavam ociosas à beira de uma banheira. Pensavam em seus filhos (ou em tê-los) e em como conseguir prestígio para si e para ele dentro do palácio.

A hierarquia dentro do harém seguia o seguinte padrão: odaliscas (as virgens, que não foram tocadas pelo sultão), concubina (companhia noturna), ikbals (favoritas) e kadins/haseki (similar a esposa).

Pois é, as odaliscas estavam no patamar mais baixo da hierarquia do palácio!

As odaliscas eram mulheres escravas compradas em mercados ou adquiridas em guerras, vendidas por sua própria família ou ainda raptadas. A partir daí, eram levadas para o palácio para serem criadas. Eram treinadas nas mais diversas funções pois, como chegavam muito jovens, não se sabia o quanto teriam de capacidade ou beleza. O treinamento incluia modos, etiqueta, leitura do alcorão, tecer, bordar, dança, poesia, música. Sim, incluía dança, como parte do aprendizado, mas não eram as “dançarinas do palácio”. Este treinamento era supervisionado pela sultana valide, autoridade máxima feminina no palácio.

Algumas podiam ser nomeadas como servidoras do “oda” (quarto) do sultão, ou encarregadas de suas roupas ou de seu banho. Nada glamuroso, enfim. Era muito difícil para a odalisca ser notada pelo sultão, ou mesmo ser escolhida para ser apresentada a ele, em meio a tantas outras mulheres bonitas e talentosas.Mas, caso isso acontecesse, poderia tornar-se sua concubina. Com isso podeira subir os degraus da hierarquia e desenvolver sua carreira (sim, carreira!) dentro do harém. Ser concubina lhe daria a chance de ter um filho com o sultão, o que a favoreceria dentro da estrutura do harém. Assim ela poderia, através da astúcia e do jogo de poder, ter alguns privilégios para si e para o filho.

            Vê-se que é uma questão de sobrevivência, um jogo onde tudo é calculado, e muito distante daquelas histórias cheias de imaginação que tentam nos vender, da “preferida do sultão” e coisas assim.

            Então, as odaliscas eram as escravas do palácio, treinadas para diversas funções. E, apesar de dançarem um pouco, não eram as “dançarinas do palácio”, mas sim criadas.

Mas então, qual é o motivo de chamarem as bailarinas de dança do ventre de odaliscas?

            Não sei...!

20 comentários:

  1. Olá, Márcia!
    Acho que tudo começa com a desinformação sobre o que representava o espaço do harém. Ele foi reduzido a um lugar de confinamento de mulheres sexualmente disponíveis a serviço do sultão. A odalisca, por ser preparada, como você disse, para diversas funções, dentre elas a dança, tornou-se o símbolo deste entretenimento "machista". São muitos os conceitos errôneos associados à dança do ventre. Cabe sobretudo a quem ensina a dança, remover todo este entulho.
    Valeu pelas informações! :)
    bjks
    Rosana

    ResponderExcluir
  2. Pois é, Rosana! A desinformação somada à necessidade de preencher algumas idéias preconcebidas leva a muita distorção!
    O pior é que muitas pessoas simplesmente repetem o que ouviram, sem pensar a respeito, nem pesquisar, nada!
    Percebo que muitas bailarinas se preocupam muito mais em fazer o "passo do momento", comprar o "figurino da moda", mas não lembram que fazem uma dança étnica. Uma pena!
    Mas parece que isso está, aos poucos, mudando. Ainda bem!

    ResponderExcluir
  3. Que bom, Caroline, obrigada! Estou à disposição para qualquer dúvida ou comentário!

    ResponderExcluir
  4. Que bom que tem gente boa escrevendo e esclarecendo assuntos tão confundidos pelo pessoal!!
    Parabéns!!

    ResponderExcluir
  5. Obrigada, Rebeca!
    Eu gosto muito de compartilhar os frutos de minhas pesquisas; que bom que foi útil!

    ResponderExcluir
  6. Márcia, adoro seus textos! Obrigada por compartilhar seu conhecimento e estudo!

    Bjão.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Caroline!
      É um prazer poder compartilhar minhas pesquisas!
      Bjs

      Excluir
  7. Acho que a culpa é daquele seriado Jeannie é um gênio, lembra? Brincadeiras à parte, Marcia, você tocou num ponto importante e que pensei em comentar no domingo, mas não achei conveniente. A questão da força e do poder da mulher "oriental", árabe. Em filmes como Alexandre (com sua mãe sendo Angelina Jolie) é possível ver essa preocupação materna com a prole. Esse filme é fantástico e foi o prejuízo histórico de Hollywood, vai entender. Assisti também Nero e sua mãe tem papel semelhante ao da de Alexandre, o Grande. Infelizmente, nos filmes, isso é abordado de forma bem nefasta. Jolie, por exemplo, aparece com seu rosto perfeito fazendo caras e bocas da pior das serpentes, como se tudo girasse em torno de seu próprio interesse.
    Um filme muito revelador sobre a Força, o Poder e a Determinação das mulheres "do Egito" é a última biografia de Cleópatra, de Schiff, Stacy: Cleópatra, uma biografia. Essa mulher era grega, teve que governar com a força de um centurião, já que era uma estrangeira, no entanto pintam a criatura como uma ninfomaníaca. Uma mulher que aos 18a foi seduzida por César (60a) e que depois dele ficou com Marco Antonio até morrer. Devoradora de homens peba essa, hein? O filósofo Cícero é um dos maiores responsáveis pela degradação da imagem dela. Mas isso fica para o livro.
    Por quê pensei em indicá-lo? Não que trate de dança, mas da cultura egípcia, grega e romana, das reentrâncias entre elas e de como o mundo ficou diferente depois do que houve ali.
    #ficadica

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Patrícia!
      concordo com você, existem vários aspectos a abordar sobre a visão ocidental sobre as mulheres árabes. Os filmes são as pinturas atualizadas, ou "pinturas com movimento". Logo, sofrem dos mesmos problemas que as pinturas e talvez até mais, já que um filme parece ainda mais "realista" que uma pintura.
      Mas existem fatores que são mais abrangentes: os povos do Mediterrâneo têm muitas coisas em comum, e uma delas é a maneira mais afetuosa (e às vezes superprotetora) com que tratam a família em geral e os filhos em particular.

      Excluir
    2. Grata por mais essas informações _/\_

      Excluir
  8. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  9. Que informação esclarecedora. Amei.

    ResponderExcluir
  10. E como eram chamadas as dançarinas dos palácios?

    ResponderExcluir
  11. Olá Márcia Amei saber dessas informações! Venho me aprofundando nas origens da dança do ventre é tanta distorção aff
    Mas uma coisa que fiquei pensando Depois de ler o seu texto onde falou um pouquinho do Harém e esta hierarquia entre as mulheres, será que foi daí que surgiu a competição entre as mulheres!?

    ResponderExcluir
  12. Gaby, a meu ver, existe competição entre mulheres, e entre homens também, em muitas áreas, e há muito tempo!
    Este lado do ser humano é citado e combatido em textos muito antigos.
    Conforme a área de atuação, isso é mais ou menos evidente. Em ambientes corporativos, costuma ser mais disfarçada, mas existe, e como!
    Em meios mais expostos, como as artes e os esportes, isso fica mais óbvio (como na área de musculação de uma academia, por exemplo).
    No caso da arte, este lado mais competitivo aparece quando ela é voltada para o mercado, e também quando as pessoas são inseguras.
    Querer diminuir (ou "eliminar") o outro para crescer é uma ilusão.
    A arte é - ou deveria ser - um encontro com a Verdade e a Beleza.
    E um encontro com nosso crescimento pessoal. Ao invés de competir com os outros, deveríamos procurar superar nossas dificuldades e limitações. Essa é a verdadeira vitória.
    E um aprendizado diário, para todos nós.

    ResponderExcluir