domingo, 4 de abril de 2010

Tempo circular e imersão


Na cultura árabe, de um modo geral, o tempo é pensado como círculo, símbolo da perfeição. O cosmo “é concebido como algo que se expande e contrai ciclicamente” (Marsicano, p. 59)1, em uma visão de grande ciclo de existência do universo. Existem também os pequenos ciclos, como os movimentos planetários, as estações do ano, o dia e a noite; acontecimentos que se repetem, mas sempre de forma renovada, como uma espiral, já que não existe repetição absoluta no universo.

As pessoas buscam estar afinadas com os ciclos do universo. “A sensação de tempo é dada pela afinação corporal e espiritual com uma série de ciclos micro e macrocósmicos integrados, codificados em cadeias analógicas” (Wisnik, p. 83). Aqui o tempo não é medido pelo relógio ou metrônomo, mas de forma a acompanhar os ciclos naturais, que não são lineares nem idênticos.

“Mais do que qualquer outra forma, o círculo implica um centro” (Tuan, Topofilia, p. 43). Tanto no Ocidente como no Oriente, a ideia do tempo circular era acoplada à ideia de centro. Isso se refletiu nas artes, na filosofia, na cosmologia, na geografia. Era comum a ideia de etnocentrismo entre os povos, como forma de autorreconhecimento e defesa. Uma nota musical era o centro na música, dançava-se em círculo, Deus era o centro na cosmologia e o próprio povoado era o centro geográfico.

Quando o tempo é concebido como circular, o que tem mais valor é a experiência, a imersão naquele momento. Assim, é possível estar vivenciando uma situação semelhante, mas a experiência é nova, pois a característica temporal dominante é o instante, a duração, o tempo presente. E a percepção do tempo vincula-se a percepções corporais como, por exemplo, a respiração ou o tempo de audição. “Os indianos usam o batimento do coração ou o piscar do olho como referência” (Wisnik, p. 17).

No caso da poesia e das canções, por exemplo, os temas se repetem, mas “tratam de coisas que, mesmo reiteradas, nunca ficam velhas” (Soler, p. 20). Tratam das dificuldades humanas, amores, natureza, “e essas coisas elementares são eternas” (Soler, p. 21). Essa repetição permanente do diferente acontece também na estrutura da música.
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A música modal, à qual essa concepção de tempo é relacionada, existiu no mundo europeu até o Renascimento, e ainda hoje é utilizada pelos árabes, indianos e alguns outros povos. Com frases melódicas girando em torno de uma tônica (nota de base), cria um efeito hipnótico, uma espécie de suspensão do tempo, possibilitando uma experiência de imersão. É novamente a ideia de círculo: notas que circulam ao redor de um centro, no caso a nota tônica da escala.

Assim, a experiência da circularidade aparece na cultura árabe em suas várias manifestações.


Nota 1. Os astrônomos contemporâneos vieram a comprovar que as galáxias estão se afastando umas das outras e que o universo expande-se a partir de uma explosão inicial


*Este texto foi ibaseado no livro Música árabe: expressividade e sutileza, de Marcia Dib, Edições BibliASPA, 2010

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DIB, Marcia. Música árabe: expressividade e sutileza. São Paulo: Edições BibliASPA, 2010
MARSICANO, Alberto. A música clássica da Índia. São Paulo: Perspectiva, 2006.
SOLER, Luis. Origens árabes no folclore do sertão nordestino. Florianópolis:
Editora da UFSC, 1995.
TUAN, Yi-Fu.
Topofilia - um estudo da percepção, atitudes e valores do
meio ambiente
. São Paulo: Difel, 1980.
WISNIK, José Miguel. O som e o sentido - uma outra história das músicas.
São Paulo: Companhia das Letras: Círculo do Livro, 1989.

4 comentários:

  1. Olá Márcia tdo bem?

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  3. Adorei o espaço!
    Abraços fraternos!

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  4. Obrigada!
    Dei uma olhada no seu blog e gostei!
    Vocês têm algum vídeo com as danças?
    Um abraço,
    Marcia

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