O público e o privado na cultura árabe urbana(Este texto se relaciona com a pergunta da nossa última enquete, que foi: "Você acha que existe alguma relação entre a forma de se vestir e a arquitetura de um local?" )
O corpo é nossa primeira morada; por isso existe uma relação estreita entre a forma como lidamos com ele - incluindo nossas vestimentas - e a forma como construímos nossas casas: o que entendemos por conforto, segurança e privacidade?
Abrimos mão do corforto em nome da beleza? A segurança está acima do conforto? Deixamos de lado a privacidade, para nos adequarmos à última moda ou exibirmos nosso status?
Estes conceitos são culturais e se materializam, por exemplo, através das roupas e da arquitetura. Um passeio por algumas cidades árabes mostra que existe um limite claro entre o que é público e o que é privado; e isto está presente em vários aspectos do cotidiano.
Na parte antiga das cidades isto fica mais evidente: as ruas são estreitas, as casas lembram caixotes fechados, parece que não existe capricho. Pequenas portas marcam a entrada das casas.Não se sabe o que existe ou acontece dentro delas.
Mas se houver a oportunidade de entrar numa casa, o que se vê é um presente para o olhos: claridade, beleza, frescor. Um pátio com uma fonte para se refrescar. Plantas em vasos ou em hortas e jardins. Uma surpresa!




Muitas surpresas...
O pátio é o coração da casa, todos os cômodos se voltam para este espaço central. É onde a família se reúne e os amigos vêm para conversar. Todos os que são considerados íntimos podem frequentar este espaço, onde ficam à vontade e mesas são dispostas para as refeições do grupo. É aí também que acontecem os trabalhos domésticos, se encontra a água e o repouso ao ar livre.

Se você tem um pátio, você tem seu próprio pedaço de céu.
Os muros que vemos ao longo da rua protegem este espaço, onde a vida ao ar livre pode ser desfrutada em completa privacidade. É impossível, estando fora da casa, saber o que ocorre dentro dela. E se, por acaso, há alguma janela, ela é feita de forma que se enxergue de dentro para fora, e não de fora para dentro. São as muxarabias (mushrabiya), as famosas janelas presentes em várias cidades árabes – e até no Brasil colonial, em Diamantina, MG (abaixo, à direita).

Muxarabia vista de fora e de dentro


Originalmente feitas para resfriar a água no interior das casas, tornou-se um espaço privado onde se pode estar à vontade, se refrescar e, ao mesmo tempo, ver o que acontece no espaço público. Além disso, existem aquelas que são um trabalho de entalhe em madeira belíssimo.
E nas casas com menos recursos, uma muxarabia, mesmo simples, está presente.
Mas... e as roupas?


A partir desta diferença entre o público e o privado na arquitetura, é possível olhar a escolha das vestimentas de outra forma.
Acima vê-se um tipo de roupa utilizado pelos muçulmanos, tanto pelos homens como pelas mulheres: a idéia é não mostrar tanto o corpo nos ambientes públicos.
Pensando no que foi dito, a pergunta que fica, ao fazer um paralelo com a arquitetura, é:
"Que surpresa nos aguarda?"
Este tipo de roupa deixa espaço para o exercício da imaginação, o de tentar ver, através dos movimentos, dos gestos, do vento que bate, algo desse corpo que é concebido como íntimo, que não deve ser exposto em um ambiente público. E que será mostrado para os que forem considerados íntimos, num ambiente privado.
Numa festa familiar, serão usadas roupas elegantes; numa ocasião informal, aparecerão as bermudas e saias; e as roupas insinuantes serão escolhidas para os momentos de intimidade. Ou seja, exatamente como americanos e europeus escolhem suas roupas, com a diferença de que, no ambiente público, se coloca algo por cima de tudo. No uso destas túnicas vê-se que a ideía não é se enfeitar para o público em geral, mas para aqueles que você considera mais próximos.
Tanto as fachadas das casas como as roupas discretas guardam para a intimidade "um pedaço do céu".