Mostrando postagens com marcador dança do ventre. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dança do ventre. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Entrevista com Marcia Dib

Entrevista cedida à Central da DAnça do Ventre

Ela fez mestrado sobre cultura árabe, lançou o 1º livro sobre Música Árabe do Brasil, ministra cursos e palestras pelo país….e muito mais. Entrevistei ela pra contar um pouco de tanta coisa bacana que ela faz por nós e pela cultura árabe no Brasil. 


 1. Você fez mestrado na USP sobre Cultura Árabe, que depois te levou a lançar o livro Música Árabe. De onde veio este interesse pela Música Árabe?
Eu estudei música desde pequena: piano, canto, percepção e teoria musical. Mas sempre a música ocidental. 
Quando comecei a praticar as danças árabes, fiquei maravilhada com as sonoridades orientais e decidi pesquisar mais sobre a música árabe.           
Mais tarde, quando fui para a Síria p
ara estudar as danças e músicas de lá, percebi a riqueza e diversidade da cultura árabe. Existem muitas manifestações musicais árabes, mas a base sonora é a mesma. Escrevi o livro para falar sobre o que a música árabe tem em comum, já que seria impossível falar sobre “toda” a música árabe.



2. Você ministra cursos e palestras pelo Brasil sobre Música Árabe, quais as dificuldades e interesses que você nota que são mais comuns em quem dança?
Existe bastante interesse em conhecer melhor a música. Cada vez mais as pessoas percebem o quanto a música pode ser explorada para fazer uma dança mais bonita. 
Eu percebo que a maior dificuldade é o estudo das melodias; trabalhar as características da melodia a favor da dança. O estudo de música árabe no Brasil é muito concentrado no ritmo e, às vezes, a parte melódica é deixada de lado. É uma pena, já que um mesmo ritmo pode ser o “chão” de diversos tipos de melodia. 
Percebo também um certo receio das pessoas em relação à música árabe, como se ela fosse muito difícil de entender. Nos cursos elas acabam perdendo o medo e conseguindo conversar sobre música e aproveitar o que ela tem de bom. 


3. Na sua opinião, quais os elementos da música árabe que são mais essenciais para uma bailarina de Dança do Ventre conhecer e dominar? Estes itens as bailarinas encontram no seu livro? E encontram em quais cursos seus?
Acho muito importante perceber que existem uma intenção por trás da música. Ter claro que, “do lado de lá” da música existe uma pessoa que pensou em tudo: na estrutura da música, nas frases melódicas e rítmicas, nas pausas... Ao perceber a intenção do compositor (e para isso é preciso sentar e ouvir várias vezes, saboreando cada trecho), a bailarina consegue explorar com muito mais segurança cada aspecto da música. Ela mergulha na música e extrai o melhor dela! 
No livro eu abordo várias características da música e da composição musical, tanto em relação às melodias como aos ritmos. É um livro de consulta, de estudo constante. A pessoa pode ler aos poucos, conforme suas dúvidas e interesses. 
Eu monto os cursos em função das necessidades das pessoas. Existem os cursos gerais, sobre música árabe e musicalidade, mas também costumo oferecer cursos personalizados. 


4. Além da música árabe, uma outra vertente forte de seu trabalho é o Folclore Árabe, mais especificamente o da Síria. Conta um pouco de onde surgiu este interesse e como é seu trabalho com este folclore.
Minha família é da Síria, vieram há bastante tempo mas ainda temos ligações com nossas raízes. Quando fui estudar dança na Síria, não conhecia nada do folclore de lá (apenas um pouco do dabke...). Fiquei muito surpresa com a diversidade das danças! Acabei voltando para lá para estudar com professores particulares e também fiz estágio em um grupo de danças folclóricas. Foi um processo muito enriquecedor, voltei completamente fã daquelas danças tão pouco conhecidas por aqui.


5. Quais as principais características do Folclore da Síria? E quais você mais gosta?
A Síria é um país muito grande e possui diversas danças regionais. Existem as danças das montanhas férteis, as danças do deserto, aquelas praticadas no norte (próximas ao Rio Eufrates), as danças das cidades grandes e pequenas... São muitas manifestações diferentes e lindas, é difícil escolher uma predileta! No meu blog existe uma postagem que fala um pouco sobre elas, veja aqui.


6. O seu livro Música Árabe foi o 1º a ser lançado sobre o tema no Brasil. Conta um pouco sobre quando lançou, como foi o processo de criação. E onde as pessoas podem encontrar ele pra comprar.
Enquanto eu estava elaborando a minha dissertação de Mestrado, eu precisei falar bastante sobre as músicas da Síria, mas não havia material em Português. E pouquíssimo material em outras línguas... Tive que voltar para a Síria para conseguir material teórico para justificar algumas coisas que são óbvias para qualquer músico árabe. Coisas do meio acadêmico... Então fiz um capítulo dedicado à música, para que as pessoas conseguissem entender sobre o que eu estava falando. Depois que eu entreguei o Mestrado, surgiu a oportunidade de editar o livro. Fiz uma revisão e ampliei as informações contidas na dissertação e publiquei o livro, que teve ampla aceitação. Como a edição é minha, as pessoas podem comprar diretamente comigo (é só entrar em contato aqui ou pelo email marciadib@hotmail.com). Se preferirem, podem comprar pelo site da Shimmie, tem exemplares lá também. 


7. Você nota que o Brasil nutre especial interesse pela cultura árabe, tanto no que diz respeito à culinária, literatura, arte e dança? A que você atribui este interesse?
Acredito que o grande interesse aconteça por três motivos: primeiro, as culturas do Mediterrâneo são muito próximas e no Brasil existem forte imigração mediterrânea e acaba existindo uma identificação. 
Em segundo lugar, porque os árabes estiveram presentes em Portugal e no norte da África, por onde vieram indiretamente muitas influências árabes para o Brasil, pelos colonizadores e povos escravizados (nas palavras, alimentação, hábitos, música e dança). 
E em terceiro lugar, porque a cultura é linda, rica e interessante! Sou suspeita... rs


8. Qual conselho você daria para quem dança?
Nunca perca de vista que a dança nasceu em um ambiente cultural específico. Foi a partir de danças simples, do cotidiano, que vieram as raízes da dança do ventre. Ela foi sendo construída de maneira a se tornar uma dança-espetáculo, mas não deveria perder suas origens. 
Penso da mesma maneira em relação à música. A música árabe é feita em cima de bases tão profundas e maravilhosas, que deveriam ser sempre o nosso chão para dançar. 
A sabedoria árabe está presente em todas as manifestações culturas e artísticas, e não deve ser esquecida ou pouco aproveitada. 


9. Quer deixar algum recado, alguma dica? Fica à vontade.
Eu diria para nunca deixar de estudar, de ter curiosidade, de ampliar seus horizontes. Isso é estar viva! O artista deve estar sempre aberto a se desafiar, a aprender coisas novas. E eu estou sempre à disposição para quem quiser estudar. E só entrar em contato comigo!

Marcia Dib é Mestre em Cultura Árabe pela FFLCH/USP e autora do livro Música Árabe: expressividade e sutileza
Blog: http://marciadib.blogspot.com.br/Facebook: https://www.facebook.com/marcia.dib.5
Email marciadib@hotmail.com

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Mabruk! e Marcia Dib no Bem Estar

Veja os vídeos do Bem Estar de Ano Novo, que contou com a presença da professora, bailarina e coreógrafa Marcia Dib e de seu grupo Mabruk!
As bailarinas são: Cristiane Gubeissi, Marta Najjar e Vivian Najjar, todas descendentes de sírios e libaneses.


star

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Será que as bailarinas são odaliscas?

Harem dancer, Hans Zatzka
 
            Vocês já devem ter ouvido alguém se referir às bailarinas como odaliscas. No Carnaval, são vendidas “fantasias de odalisca”, que são iguais às usadas na dança do ventre; em shows, as pessoas apresentam: “E agora, nossas lindas odaliscas!!!”. Não é verdade?

Não sei porque nem quando esse costume começou, mas sei que as odaliscas, originalmente, não tinham nada a ver com ser dançarina...!

Afinal, quem eram as odaliscas?

O termo vem do turco UADAHLIK, que significa criada de quarto.

Criada de quarto? Como assim?

Para entender isso, vamos recuar um pouco para o tempo e o lugar onde esse termo originou-se e era empregado, ou seja, nos palácios dos governantes do Império Turco-Otomano.

            O palácio era a sede do Governo e também a moradia do governante e sua família.  A vida social e política da classe mais elevada acontecia dentro dos espaços privados; a reclusão – tanto dos homens quanto das mulheres - significava privilégio para as classes abastadas. Para que tudo funcionasse bem dentro dos palácios ou seja, a vida familiar, política, social e cultural, era necessário haver muita organização e um grande aparato administrativo.

            Uma das estruturas do palácio era a do harém, que nada mais é do que o espaço reservado à vida íntima, familiar, seja num palácio ou numa casa comum. É o local de convivência da família e dos parentes próximos, além de parte da criadagem. Outras pessoas não podem entrar.
 
A palavra harém é derivada de h-m-r, raiz árabe que significa sagrado ou proibido, pode também designar o espaço privado das mulheres. É uma idéia muito antiga e vários povos tiveram ou ainda têm um tipo de harém, que é um lugar de convivência e trabalho doméstico também.

Um fato interessante é que a questão do poder dentro da estrutura dos palácios poucas vezes é abordada no que se refere às mulheres. Mas são elas que dão os descendentes ao trono, logo os aspectos sucessórios são de suma importância para elas. Existe uma hierarquia clara dentro dos haréns dos palácios e as mulheres não estavam preocupadas apenas em ficar reclinadas descansando, como é visto em diversas pinturas dos orientalistas. Tinham suas ocupações também, não ficavam ociosas à beira de uma banheira. Pensavam em seus filhos (ou em tê-los) e em como conseguir prestígio para si e para ele dentro do palácio.

A hierarquia dentro do harém seguia o seguinte padrão: odaliscas (as virgens, que não foram tocadas pelo sultão), concubina (companhia noturna), ikbals (favoritas) e kadins/haseki (similar a esposa).

Pois é, as odaliscas estavam no patamar mais baixo da hierarquia do palácio!

As odaliscas eram mulheres escravas compradas em mercados ou adquiridas em guerras, vendidas por sua própria família ou ainda raptadas. A partir daí, eram levadas para o palácio para serem criadas. Eram treinadas nas mais diversas funções pois, como chegavam muito jovens, não se sabia o quanto teriam de capacidade ou beleza. O treinamento incluia modos, etiqueta, leitura do alcorão, tecer, bordar, dança, poesia, música. Sim, incluía dança, como parte do aprendizado, mas não eram as “dançarinas do palácio”. Este treinamento era supervisionado pela sultana valide, autoridade máxima feminina no palácio.

Algumas podiam ser nomeadas como servidoras do “oda” (quarto) do sultão, ou encarregadas de suas roupas ou de seu banho. Nada glamuroso, enfim. Era muito difícil para a odalisca ser notada pelo sultão, ou mesmo ser escolhida para ser apresentada a ele, em meio a tantas outras mulheres bonitas e talentosas.Mas, caso isso acontecesse, poderia tornar-se sua concubina. Com isso podeira subir os degraus da hierarquia e desenvolver sua carreira (sim, carreira!) dentro do harém. Ser concubina lhe daria a chance de ter um filho com o sultão, o que a favoreceria dentro da estrutura do harém. Assim ela poderia, através da astúcia e do jogo de poder, ter alguns privilégios para si e para o filho.

            Vê-se que é uma questão de sobrevivência, um jogo onde tudo é calculado, e muito distante daquelas histórias cheias de imaginação que tentam nos vender, da “preferida do sultão” e coisas assim.

            Então, as odaliscas eram as escravas do palácio, treinadas para diversas funções. E, apesar de dançarem um pouco, não eram as “dançarinas do palácio”, mas sim criadas.

Mas então, qual é o motivo de chamarem as bailarinas de dança do ventre de odaliscas?

            Não sei...!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A mulher árabe

Entrevista originalmente concedida à Revista Shimmie (2012)

Começando a conversar:

Marcia Dib: Acho difícil falar “da” mulher árabe, assim como seria difícil falar “da” mulher brasileira. O mundo árabe (aqui considerado como o conjunto de países que falam o árabe) é extremamente vasto, e abarca diversos países com culturas diferentes entre si. Embora a mídia sempre aponte o mundo árabe como um bloco homogêneo, a realidade é bem diferente, existe uma diversidade enorme e aí é que está a riqueza de estudar a cultura árabe.
           As características de um pessoa, mulher ou homem, ou de um grupo, provêm de muitos fatores; é preciso ver onde ela nasceu e como a sociedade se estrutura neste local; a que grupo – social, econômico, étnico e religioso – pertence; como essa sociedade em geral ou seu grupo em particular, lida com os mais diversos assuntos; se ela tem acesso aos estudos; se ela tem acesso às informações da sociedade, seja através de conversas com outras pessoas, livros, internet, radio, televisão, cinema e outros; a quais regras está exposta, seja na sociedade ou na família; qual o grau de liberdade de ação que ela possui, etc.
          Além disso, existem as questões subjetivas, que pertencem a cada pessoa, tais como a história familiar, com suas alegrias e tristezas, os traumas e tabus de cada um, o grau de ousadia ou submissão; que são questões que muitas vezes ficam acima das pressões sociais. Você pode morar num local de muita liberdade e mesmo assim ser submissa; ou estar inserida em um grupo social que prega a introversão e ser extrovertida, por exemplo.
         É claro que existem pontos em comum dentro da cultura árabe, e falarei aos poucos deles conforme nossa conversa avançar.
 

Revista Shimmie: Por que temos a imagem de uma mulher árabe submissa?

Márcia Dib: Acredito que essa imagem tenha mais a ver com machismo do que com qualquer religião ou grupo específico.
            Um fato é que, em alguns grupos religiosos, existe o ensinamento de que o homem está um pequeno degrau acima da mulher, no sentido de ter o papel de provedor e protetor da família, além de condutor da família nas questões religiosas.  Onde isso acontece, há um equilíbrio de forças; o homem conduz uma parte da estrutura familiar e a mulher, outra.
           Infelizmente, há grupos ou pessoas com idéias machistas, que interpretam esta questão como autorização para humilhar e submeter a mulher.
          É preciso, então, separar o que é uma regra religiosa do que é uma interpretação social, cultural ou pessoal. Essa confusão não é privilégio dos árabes; o machismo justificado por outras questões acontece em vários outros lugares.
         Por outro lado, o que é visto como submissão por nós pode ser, na verdade, uma característica mal interpretada da energia feminina. O feminino acontece dentro, nas entrelinhas, na subjetividade. O fato de você não falar alto nem sempre quer dizer que você não tem voz. Existem muitas maneiras de se comunicar, de se fazer presente, de dar sua opinião. Nem tudo o que existe é o que está à vista mas, como estamos numa sociedade onde tudo tem que estar às claras, onde se fala de tudo, é difícil, para nós, entender que algumas coisas funcionam de maneira mais sutil, mais habilidosa.
        Às vezes o fato de uma pessoa não se posicionar pode ser submissão, outras vezes pode ser uma escolha estratégica consciente. É importante não generalizar.

 
RS: Por que a mulher árabe tem que usar véu?

Márcia: Originalmente, as muçulmanas – e não todas as árabes - deveriam usar o véu por modéstia (não mostrar sua beleza em público) e por recato (o cabelo é visto como algo muito sensual e atraente). Essa decisão deveria ser delas perante Deus, ninguém deveria obrigá-las a isso. Mas o que acontece, em muitos casos, é que a sociedade pressiona muito e os motivos acabam sendo muito mais externos – “todas usam, você também tem que usar”. O importante seria ter uma atitude de recato quando se está em público e não apenas a vestimenta ser recatada.
             O véu é usado de diversas maneiras e, muitas vezes, o modo de amarrar, o quanto do rosto está exposto, o tecido ou as cores, denotam de onde a mulher é, de qual religião e classe social, se mora em área urbana ou rural, se é beduína etc. É também uma maneira de identificação, de pertencimento social.
            Acho interessante o fato de quase nunca se mencionar que os homens muçulmanos também deveriam usar (e vários usam) roupas largas, que não mostrem o corpo, e também cobrir a cabeça, pelas mesmas razões...!
           Mas isso não atrai a mídia, que só tem interesse em tomar a parte pelo todo, reduzindo uma cultura complexa a alguns elementos “exóticos”. Por isso, acho muito importante a oportunidade que a Shimmie abriu de esclarecer alguns fatos, isso é fundamental hoje em dia.

 
RS: Quais as diferenças entre as mulheres árabes de diferentes religiões?

Márcia: A religião é elemento importante nos países árabes e ela faz parte ativa da vida da maioria das pessoas, está intimamente ligada á identidade delas, seja por seguirem seus preceitos ou pelo convívio social. Todos aprendem desde cedo a ter relações sociais e comerciais com pessoas de outras religiões, mas existem limites para esta convivência. Ainda é um incômodo haver um casamento entre pessoas de religiões diferentes, principalmente por causa da criação dos filhos.
            Em termos de cotidiano, a maioria das religiões prega atitudes semelhantes, como amar a Deus e ao próximo, fazer o bem, respeitar os pais e os mais velhos, fazer caridade, jejuar etc. Mas cada uma vai estruturar estas ações com justificativas próprias, formando um corpo de ensinamentos bastante consistente e integrado, e é difícil descrever essas diferenças com precisão.  
           Acho importante também diferenciar o que é cultural ou social do que é um ensinamento ou orientação religiosa, seja qual for a religião. Nem sempre fica claro o porquê de uma atitude ou costume, pois algumas coisas tendem a ficar misturadas, principalmente para quem olha de fora. Às vezes o local onde a pessoa mora – cidade grande ou pequena, área urbano ou rural, etc. - influencia tanto quanto a religião, porque algumas regras sociais mudam de uma situação para outra. Outro fator é o grau de devoção da pessoa e o quanto ela segue as regras da religião, o que pode mudar bastante seu comportamento.
            É comum atribuírem vários problemas da cultura árabe à religião, quando toda religião, em sua essência, é perfeita; a deturpação vem depois, com as interpretações dos seres humanos, naturalmente imperfeitos.


RS: Por que os homens podem ter diversas mulheres?

Márcia: Entre os cristãos, o casamento é um sacramento e a monogamia é uma de suas condições. Já entre os muçulmanos, o casamento não é um sacramento, é um ato civil para construção de uma família, e não é visto pela ótica do romantismo (aliás, casar por amor é algo recente na história da humanidade, em qualquer lugar do mundo). O casamento no Islá é visto pela ótica da praticidade, do que funciona e tem tudo para dar certo. Mas é necessário que tanto a noiva como o noivo concordem com as condições, colocadas em um contrato que ambos assinam.
            Como no Islã a função de protetor e provedor é principalmente masculina, existem muitos fatores envolvendo a decisão de ter mais de uma esposa: no caso das guerras, é para a proteção de alguma mulher ou para acolher famílias desamparadas (muitas vezes os filhos também vêm junto, não apenas as mulheres). Outro caso acontece quando a mulher não pode ter filhos, por infertilidade ou por já estar em idade avançada, e o homem pode se casar com outra.
            É importante saber que, idealmente, o homem deve ser igualmente justo com todas as esposas, tanto ao repartir seu tempo e atenção, como financeiramente. Exatamente por ser algo complexo e envolver muitas obrigações, a poligamia acontece com muito menos frequência do que se imagina.

 
RS: Existe um perfil atual da mulher árabe? A mulher árabe moderna?

Márcia: De um modo geral, atualmente a mulher árabe tem mais acesso à informação, mais direitos como cidadã e maior liberdade de escolha. Mas este quadro não é geral; muitas ainda estão lutando por isso.
             Como as mulheres do mundo todo, elas têm estudado por mais tempo, frequentado universidades e feito pós-graduações. Em vários países ela escolhe sua carreira e seu trabalho, e pode também alcançar postos de comando. Podem também escolher melhor os passos que darão na vida, como o casamento, ter filhos etc. São mudanças positivas e bem-vindas.
            Por outro lado, existe entre elas uma sensação de inadequação, pois elas acham que deveriam ser como as ocidentais e, se não são, acham que estão “atrasadas”, até por influência da mídia. Mas a sociedade não se desenvolve como uma corrida; cada cultura funciona como um conjunto, nem sempre funciona se apropriar de um aspecto de outra cultura e tentar inseri-lo na nossa de maneira isolada.
             Eu entendo que as mulheres árabes estão buscando o que é ser uma “mulher moderna” e, assim como nós, elas tentam conciliar a vida pessoal com a profissional.

 
RS:Como é a questão do filho homem e da filha mulher na cultura árabe?

Márcia: Existem alguns fatores que levam a pensar que os árabes “preferem” os filhos homens mas, novamente, é preciso olhar o contexto da dinâmica familiar.
             Ao se casarem, era costume (e em alguns lugares, ainda é) as filhas mulheres irem morar na casa da família do noivo. Com isso, seus pais “perdiam a filha”. Já as noivas dos filhos homens vinham morar com a família dele, então seus pais “ganhavam uma filha” (a nora). Talvez essa seja uma das razões para a comemoração do nascimento do filho homem, já que ele sempre vai estar por perto. Por isso, é comum ver as noivas chorando no dia do casamento, já que às vezes o noivo mora longe e elas dificilmente vão se encontrar com as pessoas da sua família com a frequência que gostariam.
             Outro motivo é que o filho homem carrega o sobrenome da família, enquanto a mulher muda seu nome para o da família do noivo (exatamente como ainda acontece aqui). Como a perpetuação do nome da família é algo importante, este seria outro motivo para a predileção por filhos homens.
            Estas questões não aparecem em todos os lugares, nem em todas as famílias. No entanto, em termos de afeto, todos os filhos são muito bem-vindos! A família é fundamental para o equilíbrio emocional e muito valorizada entre os árabes.

 
RS: Qual a relação da dança do ventre com a mulher árabe? Quando elas dançam? Onde? Por que?

RS: Na maioria dos países de cultura árabe existe um limite claro entre o público e o privado. O fato de algo não aparecer em público não quer dizer que não exista. Isso vale para quase tudo: as roupas, as atividades, as atitudes, etc.
             A dança acontece nas festas familiares ou da comunidade, quando as mulheres dançam entre si ou com um parceiro. Neste caso, se dança a raqsa, que utiliza vários movimentos parecidos com a da dança do ventre, os mais simples. São movimentos que todas conhecem e praticam. O objetivo desta dança é se divertir e aproximar as pessoas.
            Nos momentos de intimidade com o marido, se gostar de dançar, a mulher costuma praticar a dança, mas de maneira mais sedutora, podendo ousar mais e fazer movimentos mais insinuantes, já que estão sozinhos e o objetivo é o da sedução. Até pouco tempo atrás, dançar fazia parte dos dotes para ser uma boa esposa, por ser uma atividade muito prazerosa, que pode aproximar o casal.
           Estas são as ocasiões mais comuns de acontecer a dança do ventre ou, na verdade, a raqsa. Mais raramente, ela é praticada pelas árabes de maneira mais elaborada e profissional, já com os passos de dança do ventre, nos palcos ou em restaurantes.

 
RS: É verdade que, no Oriente Médio, dançarinas são vistas como prostitutas? Se não, porque os hotéis contratam bailarinas estrangeiras e não locais?

Márcia: Essa característica de não misturar o que é público com o que é privado leva as pessoas a não ver com bons olhos quem se expõe dançando publicamente. Dançar é uma atividade que eles entendem como algo para ser feito entre pessoas conhecidas, quando tudo é divertido, uma brincadeira. Mesmo nos momentos em que você se insinua mais, isso não é visto de forma negativa. É completamente diferente você dançar se inclinando para perto do seu tio ou de um homem desconhecido. Ou fazer um shimmie sedutoramente enquanto dança com suas primas e estar no centro das atenções no meio de estranhos.
            Por esta razão, muitas pessoas acham que quem leva para o ambiente público algo que deveria ser feito em ambiente privado, é liberal demais. Outros acham que ela quer se prostituir, o que quase nunca é verdade. Pode ser que, antigamente, somente as prostitutas dançassem ou que as artistas, em geral, fossem vistas como prostitutas (o que foi bastante comum em muitos lugares do mundo). Para não ter problemas, eles contratam para dançar pessoas de fora, já que a maioria das mulheres locais não quer ou não pode se expôr tanto.

           
RS: Como o homem árabe vê a mulher que dança?

Márcia: É importante lembrar que muitas mulheres árabes sabem dançar muito bem, mesmo que não dancem em público. Logo os homens árabes sabem o que é uma boa dança, já viram uma prima, tia, irmã ou a esposa dançarem. E também conhecem boas profissionais. Então, quando uma bailarina se apresenta profissionalmente, ele vai apreciá-la se dançar muito bem. Caso contrário, olhará um pouco e perderá o interesse.
             Já no ambiente privado, é uma questão de gosto. A maioria dos homens gosta de ver a parceira dançar, apreciam quando ela compra novas roupas e adereços. Mas não são todos os que gostam de dança nestes momentos. Alguns preferem outras brincadeiras íntimas, outros jogos, ou massagens, cremes, perfumes. É uma questão de afinação do casal.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Espetáculo de danças folclóricas árabes


Show do Mabruk!


Dentro do Festival Sul-Americano de Cultura Árabe, o Mabruk! Companhia de danças folclóricas árabes apresentará um painel da diversidade artística existente no mundo árabe.


São danças da cidade, das áreas rurais, do deserto e junto ao Eufrates, a partir de pesquisas feitas em Damasco, por sua diretora.


Será uma oportunidade de conhecer outras danças além da conhecida Dança do Ventre e se deleitar com a riqueza dessa arte.


Local: Livraria Cultura (auditório) - Shopping Market Place

Data e horário: Dia 28 de março, domingo, às 17h

Entrada Franca


Apareçam e tragam os amigos!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

workshop de música árabe já é domingo!

Venha participar desta viagem musical conosco!
.
.
Pessoal, estamos nos últimos preparativos para o workshop, que já é neste domingo, dia 23 de agosto.
.
Como várias pessoas falaram que iriam fazer mas não confirmaram, preciso saber direito quantos vão participar para ajeitar o lugar, o material, etc. Estamos com poucas vagas e é importante que todos fiquem bem.
.
Para quem está chegando agora, leia a postagem abaixo ou escreva para marciadib@hotmail.com
.
É um workshop que falará sobre as características principais da música árabe e como aplicá-las na hora de elaborar as danças. Aberto a homens e mulheres que estudam ou trabalham com as danças árabes; e também àqueles que amam esta arte.
.
Aguardo o contato de vocês e até já!

domingo, 29 de março de 2009

Dança oriental ou dança do ventre?


Dança oriental ou dança do ventre?











Quando falo dança oriental, as pessoas perguntam o que é, porque me refiro à dança do ventre assim. Ao mesmo tempo, anuncio que dou aulas de dança do ventre. Afinal, porque existem estas denominações?
.
Precisamos voltar um pouco no tempo para começar nossa reflexão. Um nome pode estar carregado de história e significado...
.
A chamada “dança do ventre” (a dança árabe mais conhecida no Ocidente) é uma atividade que sofreu rotulações não apenas por quem a assiste como também por quem executa.

.
Começando por seu nome: O nome original desta dança é RAKS SHARQI, que significa dança oriental ou dança do leste. Este nome é uma provável alusão à origem desta dança, que muitos afirmam ter vindo da Índia (que está a leste) e caminhado até o Oriente Próximo. A denominação dança do ventre é ocidental e, se você falar para um árabe que faz dança “do ventre”, ele não vai saber o que é.
.
.
Existem 2 versões para a existência deste nome aqui no Ocidente. A mais provável é que tenha surgido na França, quando o exército de Napoleão voltou do Egito. Tendo visto as bailarinas egípcias, os franceses, tão acostumados com a linguagem do ballet clássico (que trabalha mais as extremidades do corpo, mantendo as linhas do tronco estáticas), ficaram impressionados com os movimentos incessantes do tronco e a chamaram “danse du ventre”.
.
Uma outra versão (comentada por Shokry Mohamed no livro La danza Mágica del Vientre) é a que, tendo os americanos entrado em contato com uma argelina que dançava provavelmente o “baladi” (nome popularmente dado a um dos ritmos árabes mais famosos, o masmudi sahir; bastante utilizado pelos camponeses), durante a Feira Internacional de Chicago, em 1888, também ficaram impressionados com os movimentos e fizeram um jogo de palavras com o “belly” (ventre), então: baladi dance = belly dance (dança do ventre).
.
Seja como for, são estrangeiros dando nome a uma dança que não conhecem e que os impressiona naquilo que é muito diferente do que estão acostumados: o movimento do ventre (apesar de esta dança trabalhar todo o corpo). Neste exemplo vê-se que o objetivo é classificar o outro no que ele tem de diferente, e reduzi-lo a isso.
.
.
Edward Said foi um grande pensador, que pesquisou a fundo a cultura árabe e suas relações com todo o sistema de valores ocidentais, e alertou para a existência de um sistema de idéias – chamado por ele de orientalista - que trata o Oriente da forma bastante pejorativa, o que leva a visões distorcidas e manipuladoras. Esta corrente de pensamento foi descrita em detalhes no livro Orientalismo - O Oriente como invenção do Ocidente.
.
“O Oriente [do orientalista] não é
o Oriente tal qual ele é, mas
o Oriente tal como foi orientalizado” (Said, p.113)
.
Ou seja, até o nome da dança foi inventado – modificado – pelos ocidentais. E isso aconteceu de forma sistemática e “científica”, principalmente após a Expedição Egípcia de Napoleão, como descreve Said no referido livro : “O alistamento feito por Napoleão de várias dúzias de ‘sábios’ para sua Expedição Egípcia é muito bem conhecido (...) A idéia dele era formar uma espécie de arquivo vivo para a expedição, na forma de estudos sobre todos os temas feitos por membros do Institut d’Égipte, que ele fundara.” (p. 89)
.
A partir do contato dos soldados invasores com a dança oriental, começaram a surgir distorções: as mulheres que dançavam para eles eram profissionais de tabernas e cabarés, dançarinas de rua, que enfatizavam quase que apenas aspectos eróticos da dança, dado o ambiente em que se encontravam. Além disso, existia a visão do observador Ocidental, que procurava colocar nas mulheres que via - ou que imaginava - todas as suas fantasias, carências e preconceitos.
.
.
Até hoje, existe uma visão fantasiosa do Ocidente em relação aos árabes, sua cultura, costumes, religião e estrutura social e, consequentemente, em relação às suas mulheres e sua dança.
Por outro lado, a comunidade árabe pode e deve se manifestar a respeito destas distorções, praticando bastante suas danças, divulgando e também alertando para os possíveis equívocos e desinformações. E os estudiosos dessa cultura também contribuem, no sentido de esclarecer o contexto em que a dança se dá, a real estrutura da sociedade e o papel da mulher e da arte dentro desta.
.
Mesmo que a denominação continue sendo dança do ventre: quando anunciei que dava aulas de dança oriental, pensaram que era dança japonesa...! O que faz sentido também... Então continuo usando a denominação que todos conhecem, mas procurando fazer com que seu conteúdo, técnica e intenção estejam próximos dos elementos básicos da cultura e da mulher árabe.
.
Uma denominação pode carregar um engano, mas utilizar apenas a denominação, sem conteúdo, não significa nada. Não adianta adotar o nome original e fazer uma dança totalmente fora do contexto original, não?
.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O público e o privado na dança árabe: o caso da dança do ventre

O público e o privado na dança árabe - o caso da dança do ventre

Conforme eu disse na postagem anterior, na cultura árabe fica muito claro o que é considerado publico ou privado. Estendendo esta reflexão para a dança, vemos que pode haver muita confusão a respeito disso, caso esta questão não seja considerada pelos praticantes da dança, ou mesmo pelo público. Vamos tomar como exemplo a RAKS SHARQI (dança oriental), uma das mais conhecidas e divulgadas fora dos países árabes.

Pouco se sabe a respeito da história da dança oriental - a chamada dança do ventre -, pois muitos registros se foram junto com as antigas civilizações. O que se tem certeza é que é uma dança feminina que teve sua origem na antiguidade em rituais sagrados de fertilidade, que eram praticados por diversos povos. As mulheres dançavam pedindo a fertilidade de seu corpo e também da terra, numa época em que família numerosa e terra generosa eram sinais de saúde das pessoas e da sociedade, e garantia de sobrevivência do grupo.

DANÇANDO EM SITUAÇÕES ÍNTIMAS - O PRIVADO
As danças feitas apenas entre mulheres e para mulheres utilizavam movimentos sinuosos, arredondados e espiralados, que simbolizavam o feminino. A percepção de seus benefícios para a saúde física e psíquica feminina despertaram o interesse em adaptar estes movimentos, a princípio utilizados para conectar-se ao divino através do feminino, para serem usados em outras situações da vida.

Estas danças de caráter sagrado acabaram sendo conhecidas e dominadas por muitas mulheres, que começaram a praticá-las em situações totalmente privadas, com seus maridos, com o objetivo de aumentar a intimidade, melhorar a qualidade da vida sexual, aumentar a fertilidade e favorecer o bem-estar no período da gestação.

Até hoje é comum encontrar em lojas do Oriente Médio roupas de dança do ventre bem insinuantes, para serem usadas na lua-de-mel ou em outras noites íntimas. É considerado natural e desejável que uma mulher saiba dançar para seu marido. Um exemplo que aparece em um filme exibido recentemente, "O segredo do grão", é o da garota que sabe dançar de forma bonita e insinuante. Ela aprendeu a arte em casa, com outras mulheres da família e a pratica para mostrar um pouco nas festas, e bastante em situações particulares. Voltarei a falar deste filme mais adiante.
.
DANÇANDO ENTRE FAMILIARES E CONHECIDOS - O SEMI-PÚBLICO
Uma das formas mais comuns é que seja praticada em ambientes semi-públicos, entre familiares, como manifestação de alegria. Estas danças feitas em casa ou em festas familiares são executadas por mulheres da própria família ou amiga próxima, como uma brincadeira entre conhecidos. Aqui se faz movimentos parecidos com a dança do ventre, mas o repertório de passos é menor e estes são executados de forma mais sutil e descontraída.










Todos participam e gostam de mostrar seu jeito de dançar. Os homens dançam com as mulheres, brincam com elas, rendem-lhes homenagens. Às vezes uma mulher mais habilidosa é chamada para dançar em festas especiais, mas tudo num clima descontraído e familiar.

DANÇANDO EM TEATROS, RESTAURANTES E FESTAS - O PÚBLICO
Um dos enganos de hoje é levar este tipo de dança, sem qualquer alteração, para ambientes públicos e com pessoas desconhecidas, como boates e restaurantes. Em locais como esses, a bailarina deveria fazer seu show num local específico para este fim e só ir para perto das mesas se o salão fosse grande, para estar mais próxima e brincar um pouco com o público. É muito diferente da descontração das festas caseiras, onde se brinca com pessoas que você convive desde que nasceu e todos conhecem e respeitam quem está dançando. A bailarina, no caso das danças em locais públicos, deixa de ser uma familiar que gosta de dançar para se transformar em uma artista.






Outra maneira de se apresentar, muito comum no Oriente, na Europa e nos Estados Unidos são os shows em teatros e casas de espetáculos. Assim como existe, na música, a animação de festa e o espetáculo musical, nos quais todos se sentam para apreciar o show, na dança também temos estes dois tipos de apresentação. Infelizmente, no Brasil, os espetáculos em teatros ainda são raros e poderiam mostrar todo o potencial desta dança hoje restrita a restaurantes e festas.



Como em outras manifestações cênicas (teatro, música, etc), a dança feita em teatros é proveniente das manifestações populares, só que com muito mais precisão e elaboração dos movimentos. Assim como o ator não fala numa peça teatral da mesma forma que fala em casa, num espetáculo de dança não se faz o movimento como se faz em casa. A função do espetáculo cênico não é imitar a realidade e sim extrair a essência dela e transformá-la em expressão artística.

E se não se dança num teatro como se dança em casa, quando se dança numa festa mais descontraída é melhor fazermos movimentos menores, que estabeleçam uma comunicação mais próxima e também que sejam adequados ao espaço, já que estamos dançando com os outros, e não fazendo um show para eles.


E numa situação a dois, vale o que for o mais íntimo possível: é o momento da liberdade de movimentos, da cumplicidade, da imaginação, do explorar juntos. Tudo muito diferente das situações acima, não?


SECRETO E SAGRADO

Mesmo que os movimentos sejam parecidos, quando a intenção ao dança muda, o gesto também muda. Numa situação de intimidade, fazemos movimentos mais insinuantes, que denotam cumplicidade e muita sensualidade. Numa situação familiar, os movimentos são soltos, brincalhões, mostrando a habilidade e o charme, mas já mantendo algo em segredo...

Já numa situação pública, a performance é a de uma artista profissional: os movimentos são mais desenhados, denotando técnica, charme e sensibilidade, levando o público a ouvir a música de uma forma única, marcada pela personalidade da bailarina. Ao confundirmos estas situações, podemos perder muito do que a dança pode nos oferecer.

Voltando ao filme "O segredo do grão" (foto ao lado) e abstraindo o que a direção pretendia com esta cena: vemos que a garota faz uma performance muito comum em situações a dois, mas que diante do público se torna exagerada e vulgar.

Não dá para fingir intimidade com quem não se tem. Isso tem feito com que esta dança seja sempre vinculada apenas à sensualidade, à disponibilidade da mulher. Mas ela tem muito mais a oferecer!

A beleza e o poder de atração da mulher que dança pode estar em muitas formas de expressão: num sorriso que se abre devagar, num movimento forte e direto, em um giro de liberdade, na doçura de um olhar, nas mãos que abraçam o ar, no domínio ao mexer cada parte corpo. E no mistério por trás de tudo isso.

É possível reviver a origem sagrada, onde algo se mantém secreto.